Ken Carson finalmente lançou CARTUNEZ depois de transformar o projeto em uma das novelas mais confusas do rap americano em 2026. Prometido inicialmente para 10 de julho, o trabalho passou por diferentes datas, mudanças de tracklist e rumores sobre participações até aparecer nas plataformas em 27 de agosto, ligado ao álbum xperiment.
A forma como CARTUNEZ chegou ajuda a explicar toda a confusão. Durante boa parte da divulgação, Ken tratou o trabalho como um projeto próprio, separado do álbum lançado em julho. Quando o material finalmente apareceu nas plataformas, porém, passou a ser apresentado junto de xperiment, funcionando na prática como uma extensão do disco.
Para entender por que isso gerou tanta discussão, é preciso voltar algumas semanas.
Ken Carson vinha do maior momento comercial da carreira. More Chaos, lançado em abril de 2025, estreou no topo da Billboard 200 com 59,5 mil unidades equivalentes, dando ao rapper seu primeiro álbum número 1 nos Estados Unidos.
Pouco depois, ele começou a preparar o próximo passo.
xperiment foi lançado em 3 de julho de 2026 com 22 músicas e participações de Playboi Carti, Lil Uzi Vert, Young Thug, Destroy Lonely e 2hollis. O disco estreou em sétimo lugar na Billboard 200, com cerca de 42 mil unidades equivalentes e quase 45 milhões de streams oficiais sob demand` durante a primeira semana nos Estados Unidos.
A expectativa em torno do título era justamente descobrir até onde Ken iria experimentar.
Na prática, a recepção foi mais dividida.
Boa parte das críticas apontou que xperiment ainda estava muito próximo do rage que transformou Ken Carson em um dos principais nomes da geração ligada à Opium, gravadora de Playboi Carti. A Pitchfork, por exemplo, questionou a falta de uma mudança realmente grande no som, mesmo reconhecendo momentos fortes do disco.
O próprio Ken ajudou a criar a expectativa pelo que viria depois.
Em entrevista à Complex, ele explicou que sentia ter se afastado de seu som mais natural em xperiment. Quando falou sobre CARTUNEZ, a definição foi praticamente o contrário: ali ele não pretendia fugir dessa identidade.
Isso mudou completamente a função do segundo projeto.
CARTUNEZ deixou de parecer apenas um pacote de sobras de xperiment e começou a ser visto pelos fãs como o trabalho que devolveria Ken ao som mais direto que formou sua base.
O problema é que ele não saiu quando deveria.
Ainda no fim de junho, Ken indicou que CARTUNEZ chegaria em 10 de julho, apenas uma semana depois de xperiment. A data passou sem lançamento.
Depois vieram novas janelas, comentários indicando que o projeto estava sendo finalizado e respostas para fãs dizendo que chegaria em breve. No fim de julho, outra expectativa se formou. Nada.
Em agosto, 21 de agosto virou mais uma data ligada ao lançamento. Também passou sem CARTUNEZ nas plataformas.
Enquanto isso, o projeto continuava mudando.
Em determinado momento, relatos apontavam para oito músicas. Depois, uma tracklist de 12 faixas apareceu no perfil de Ken e foi apagada. Dias mais tarde, o rapper afirmou que opmaterial já estava entregue e falou em 14 músicas.
Foi justamente essa tracklist apagada que aumentou ainda mais a expectativa.
Ela incluía "nirvana", com Destroy Lonely e Playboi Carti, além de músicas como "keep goin", "scrape", "swag jack", "50k", "rollin", "roxy reynolds", "005", "eaters", "9 bitches" e "vamp city".
Quando CARTUNEZ finalmente chegou, algumas dessas músicas não estavam no bloco lançado.
A ausência que mais chamou atenção foi "nirvana". A faixa colocaria Ken novamente ao lado de Destroy Lonely e Playboi Carti, mas desapareceu da versão que chegou ao público.
"keep goin" e "rollin" também ficaram de fora.
Por outro lado, apareceram músicas que não estavam naquela lista, entre elas "off a bean", "fake news", "disturbing the peace" e "yvngvmp".
Destroy Lonely permaneceu no projeto em "roxy reynolds". OsamaSon aparece em "vamp city", enquanto ApolloRed1 entrou em "9 bitches".
E Nettspend?
Essa é outra parte da história.
Em julho, Nettspend, OsamaSon e ApolloRed1 apareceram ligados à divulgação de CARTUNEZ, inclusive usando merch do projeto. Prints atribuídos a conversas de Ken também foram usados por páginas da cena para tratar Nettspend como uma participação esperada.
Quando a tracklist começou a tomar forma, porém, o nome dele desapareceu.
Nos dias anteriores ao lançamento, surgiu o rumor de que CXO, produtor ligado a Nettspend, não teria enviado o verso dentro do prazo por problemas envolvendo Ken Carson e OsamaSon. Também circularam relatos de que Nettspend teria reagido à situação com um "FUCK KEN".
Nada disso foi confirmado oficialmente por Ken Carson, Nettspend, CXO ou pela Opium.
O fato é mais simples: Nettspend esteve ligado à expectativa de CARTUNEZ e não aparece entre as participações do material lançado.
A ausência ganhou ainda mais atenção porque Ken vinha mostrando interesse em se aproximar da geração mais nova do underground.
OsamaSon está em CARTUNEZ, e Xaviersobased foi escolhido para abrir datas da Xperimenting Tour. Em entrevista à Complex, Ken explicou que queria dar espaço para artistas jovens que ainda não recebem tanta exposição.
Essa aproximação fazia CARTUNEZ parecer uma ponte entre a estrutura da Opium e a nova cena que cresceu depois dela.
É por isso que a mudança de tracklist importa mais do que simplesmente algumas músicas que não passaram no corte.
Para quem acompanha Ken apenas pelos grandes álbuns, CARTUNEZ é mais um lançamento em um ano movimentado. Para quem acompanhou snippets, DMs, merch, contas de arquivo e cada nova data prometida, existia praticamente outro projeto sendo construído antes do lançamento oficial.
No meio disso, xperiment também viveu sua própria confusão de formatos.
Três dias depois do lançamento do álbum, Ken colocou à venda uma versão digital alternativa com "too many poles" como faixa bônus. Aquilo não era um deluxe tradicional nas plataformas.
CARTUNEZ também não começou sendo apresentado como deluxe.
Só que, quando finalmente chegou ao streaming, acabou conectado diretamente a xperiment. Por isso, parte dos fãs passou imediatamente a chamar o lançamento de deluxe, mesmo que toda a campanha anterior tivesse tratado CARTUNEZ como uma obra própria.
A diferença parece pequena, mas resume bem essa fase da carreira de Ken Carson.
Primeiro veio um álbum chamado xperiment que parte da crítica considerou pouco experimental. Depois apareceu a promessa de um projeto mais natural e voltado para a base. Esse projeto atrasou repetidamente, mudou de tamanho, perdeu algumas das participações mais esperadas e terminou anexado ao disco que deveria complementar.
Musicalmente, as primeiras reações a CARTUNEZ são mais positivas do que a confusão do rollout poderia sugerir. "vamp city", "scrape" e "yvngvmp" aparecem entre as faixas mais citadas nas primeiras discussões de fãs, enquanto outros ouvintes continuam apontando problemas de mixagem e repetição de flow.
Ainda é cedo para qualquer conclusão sobre números ou desempenho nas paradas. O projeto acabou de chegar e não existem dados consolidados de Billboard ou Luminate para medir o impacto.
O que já dá para dizer é que CARTUNEZ acabou se tornando algo maior do que um simples lançamento extra.
Ele mostra como funciona uma parte importante do rap atual. Snippets viram músicas antes de serem lançadas. Prints transformam possíveis feats em promessas. Uma camiseta pode gerar mais expectativa do que um comunicado de gravadora. E uma tracklist apagada pode continuar existindo na cabeça dos fãs mesmo depois que a versão oficial chega.
Ken Carson entrou nessa era vindo de um álbum número 1 e com uma base grande o suficiente para transformar cada movimento em notícia. Em CARTUNEZ, essa mesma relação com a internet também cobrou seu preço.
Depois de quase dois meses de expectativa, o projeto finalmente existe. Só não é exatamente o mesmo CARTUNEZ que os fãs passaram esse tempo inteiro imaginando.
