A decisão da Concordia University, no Canadá, de oferecer uma disciplina universitária inteiramente dedicada a Drake chamou atenção muito além do meio acadêmico. Mas, para o professor responsável pelo curso, a proposta está longe de transformar a universidade em um espaço de idolatria ao rapper.
O curso Hip Hop: Past/Present/Future: Drake: Media, Myth and Manhood, anunciado para o semestre de outono de 2026, vai analisar a trajetória de Drake desde a mixtape So Far Gone até o álbum ICEMAN, passando pela construção da marca OVO e por temas como masculinidade, capitalismo, mídia, fama e bem-estar dos artistas.
Por trás da disciplina está Yassin "Narcy" Alsalman, rapper, pesquisador e professor da Concordia University, que há mais de uma década utiliza o hip-hop como ferramenta de análise acadêmica.
O objetivo não é idolatrar Drake
Antes mesmo de criar o curso sobre Drake, Narcy já havia chamado atenção ao lançar, em 2022, a disciplina Kanye vs. Ye: Genius by Design, dedicada a analisar a obra e a figura pública de Kanye West.
Na época, em entrevista à Complex, o professor explicou qual era sua proposta pedagógica, uma metodologia que agora também deve orientar o curso sobre Drake.
"Não vai ser sobre Pete Davidson. Vamos discutir o que Kanye representa e os diferentes níveis da sociedade que ele penetra. Tem o elemento do design, tem o elemento social, tem o elemento da saúde mental. Depois tem o paparazzi e como lidar com isso, e como os alunos estão vivenciando essas coisas. É sobre ser consciente e crítico ao consumir cultura. O hip-hop me ensinou a ser empático com a condição humana, mas também a ser crítico tanto artisticamente quanto socialmente. Vamos usar Kanye para essa conversa."
A declaração resume a filosofia de Narcy: utilizar artistas populares como ponto de partida para discutir questões sociais mais amplas, em vez de simplesmente celebrar suas carreiras.
Drake como objeto de estudo
Embora Drake seja o foco da nova disciplina, a proposta vai muito além da análise de seus álbuns.
Segundo a descrição do curso, os alunos irão estudar como o artista construiu uma das marcas mais influentes do hip-hop por meio da OVO, além de discutir como fama, mídia, masculinidade, capitalismo e poder moldam tanto sua carreira quanto a indústria musical.
Em outras palavras, Drake funciona como uma lente para compreender fenômenos culturais maiores.
A mesma abordagem usada para Kanye West
Outro trecho da entrevista concedida à Complex ajuda a entender por que Narcy acredita que artistas como Kanye e Drake merecem espaço dentro da universidade.
"Kanye representa contradição. Acho que a civilização ocidental e o capitalismo são uma grande contradição. Tudo que fazemos hoje tem um braço exploratório. Algumas das conversas que ele traz à tona são necessárias, outras são problemáticas, e essas conversas também precisam ser feitas. Não quero atacá-lo. Quero ser crítico e compreensivo sobre como um artista de sucesso pode subir e cair."
Essa visão ajuda a explicar por que o professor evita tratar artistas como heróis ou vilões.
Para ele, o objetivo é entender como figuras de enorme influência cultural refletem as tensões da sociedade contemporânea, permitindo que os estudantes analisem criticamente fama, identidade, poder e consumo cultural.
Hip-hop como campo legítimo de pesquisa
Narcy leciona na Concordia University há mais de dez anos e vem inserindo o hip-hop no ambiente acadêmico desde 2013.
Além das disciplinas sobre Kanye West e, agora, Drake, ele já desenvolveu cursos que utilizam artistas como Kendrick Lamar para discutir raça, política, cultura, mídia e representação.
Os cursos costumam atrair estudantes de diferentes áreas justamente por não se limitarem à música, transformando o hip-hop em ponto de partida para debates sobre questões sociais contemporâneas.
O que o curso sobre Drake representa
Mais do que reconhecer a importância comercial de Drake, a nova disciplina mostra como o hip-hop passou a ocupar um espaço consolidado dentro da universidade.
Em vez de estudar apenas artistas históricos ou movimentos culturais do passado, a Concordia University escolhe analisar um dos nomes mais influentes da música atual enquanto sua carreira ainda está em desenvolvimento.
A proposta também reforça uma mudança importante na forma como o rap é visto pela academia. Em vez de ser tratado apenas como entretenimento, ele passa a ser estudado como um fenômeno cultural capaz de revelar debates sobre identidade, masculinidade, capitalismo, mídia e poder.
Nesse contexto, Drake deixa de ser apenas um dos maiores artistas do streaming para se tornar um objeto legítimo de pesquisa, exatamente como acontece com escritores, cineastas e outras figuras centrais da cultura contemporânea.
