Uma pista vazia e um projeto aberto acabam funcionando quase do mesmo jeito. Antes da manobra ou do beat pronto, existe só espaço e possibilidade. Para NECKKLACE, as duas coisas cresceram juntas. O skate nunca apareceu separado da música porque a lógica sempre foi parecida, observar o ambiente, entender o obstáculo e criar a própria linha. Cada pessoa enxerga o mesmo lugar de um jeito diferente e na produção musical isso virou fundamento. A criatividade, pra ele, sempre esteve mais ligada à perspectiva do que à técnica em si.
Paulo Victor Barbosa Malheiros, conhecido artisticamente como NECKKLACE (anteriormente também como paulo6-6-6), nasceu em Manaus, mas foi em Recife que sua identidade começou a tomar forma. A mudança aconteceu ainda cedo, e é ali que ficam as primeiras memórias ligadas diretamente à música. Recife aparece menos como origem geográfica e mais como ponto de formação, o lugar onde o interesse virou real.
Desde criança, a música já ocupava um espaço difícil de explicar. Em casa, a intensidade dessa relação chamava atenção, até virar pergunta direta da própria mãe: por que ele gostava tanto de música? A resposta nunca veio como lógica.
"Eu não escolhi a música, a música que me escolheu."
O começo na produção passou longe de qualquer estrutura profissional. Antes de FL Studio ou Ableton, os primeiros beats nasceram dentro do Sony Vegas, um programa pensado para edição de vídeo. Era simplesmente o que estava disponível. Aprender significava testar, errar e descobrir sozinho. Esse início improvisado acabou moldando uma característica que permanece até hoje: produzir de forma direta, sem excesso de ritual técnico.

Quando começou a fazer beats, o caminho inicial foi o phonk, não o funk brasileiro, mas o som inspirado nos beats de Memphis dos anos 90, carregado pela estética de grupos como Three 6 Mafia.
"Eu comecei fazendo phonk… depois fui mais pro trap, mas essa influência sempre esteve presente em tudo que eu fiz."
A relação com samples, texturas mais cruas e atmosferas específicas nasce exatamente dessa fase. Mesmo após migrar para o trap, a base sonora continuou carregando essa origem.
Foi também nesse período que surgiram as primeiras conexões criativas com pessoas próximas da cena, incluindo SEITHÈN e outros produtores que compartilhavam experimentações semelhantes. Uma faixa lançada há cerca de dez anos no SoundCloud registra esse momento inicial, ainda assinada como Paulo666, um dos nomes usados antes da consolidação definitiva do projeto NECKKLACE.
O próprio nome artístico surgiu quase por acaso, inspirado por uma faixa do rapper Thouxanbanfauni, "10k Freestyle", onde algo relacionado aparece mencionada. A ideia ficou, a tag nasceu ali e acabou se transformando na identidade que ele carrega hoje.
Entre as músicas que despertaram a vontade de produzir, uma referência aparece de forma direta:
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Chief Keef - "Citgo".
Com o tempo, sua identidade sonora começou a se tornar reconhecível. Timbres específicos, baterias marcantes e uma construção mais intuitiva do que técnica passaram a definir seus beats. O processo acompanha essa mesma lógica.
"Eu gasto tipo uns 20 minutos pra fazer um beat, não passa muito disso."
Não é sobre rapidez, mas sobre fluxo criativo. A ideia surge, ele executa e segue adiante, mantendo constância em vez de lapidar excessivamente.
Entre os trabalhos que mudaram sua trajetória, "Mantém o Pique", com Ryu The Runner, aparece como ponto de virada real. A partir dali, o alcance cresce, novas oportunidades surgem e a música começa a deixar de ser apenas possibilidade para se tornar sustento.
Antes dessa fase, a realidade era bem diferente do imaginário comum sobre produtores em ascensão. NECKKLACE trabalhava como porteiro remoto, conciliando a rotina de liberar acessos e abrir portas à distância enquanto tentava construir sua carreira musical em paralelo. Até chegar no momento da decisão.
"Eu trabalhava… aí larguei o emprego e falei: mano, vou viver de música."
Mesmo sem estabilidade garantida, resolveu apostar totalmente. Comprou uma passagem para São Paulo pensando em ficar apenas um mês.
"Comprei passagem pra São Paulo pra ficar um mês… e fiquei até hoje."
A estadia temporária virou mudança definitiva e marcou o início de uma fase mais intensa da carreira, ampliando conexões e colocando seu nome de forma mais ativa dentro da cena.
Quando fala sobre inspiração, ele não aponta grandes ídolos distantes, mas o próprio convívio.
"Minhas maiores inspirações são meus amigos da cena, as pessoas com quem eu convivo e escuto música junto."
Essa lógica também aparece nas parcerias favoritas, citando artistas como The Boy, Yunk Vino e Alee, relações que misturam amizade e criação de forma natural.
No lado técnico, alguns elementos se tornaram pilares do seu som: Analog Lab presente em praticamente todos os beats, Zenology como sintetizador central e Portal como ferramenta recorrente de textura sonora. Ferramentas diferentes, mas usadas sempre dentro de um método simples e direto.
Quando fala com produtores iniciantes, o conselho vem sem romantização:
"Rapaziada, não usem drogas, trabalhem, estudem. Se você quer ser produtor, senta na frente do PC e mete marcha… nunca desista dos seus sonhos."
No fim, música e skate continuam ocupando o mesmo espaço simbólico. Não como estética, mas como prática diária. Cair, tentar de novo, ajustar a linha e seguir em movimento. Para NECKKLACE, criar nunca pareceu uma escolha estratégica, sempre funcionou mais como necessidade. Algo que, se não acontece, deixa o dia incompleto.
